terça-feira, 11 de janeiro de 2011

CONFITEOR I - CONTINUAÇÃO

35. A DAMA DO PRIMEIRO IMPÉRIO

                   Domitila de Castro Canto e Melo, envolvida em processo de divórcio com seu primeiro marido, Feliciano Pinto Coelho de Mendonça, procurou a influência do príncipe para a solução do caso, em 29 de agosto de 1822. Abrasados, mantiveram intimidades, se amaram. Amor, que durou anos. Três meses após, mudou-se para o Rio de Janeiro, com o pai, irmãos, cunhados e tios.
                   Em cinco de setembro, em curta viagem, D. Pedro e seu séquito, partiu para Santos, voltando no dia sete de setembro, numa mula baia. Às margens do Ipiranga, cruzou com emissários do Rio, quando, às dezesseis
horas e trinta minutos, proclamou a Independência do Brasil. Ano depois, deu ao velho lugarejo, o título de “a imperial cidade de São Paulo”.
                  O centro histórico de São Paulo era composto de 6.920 habitantes. Era pequenina comunidade, relacionamento, entre as pessoas muito próximo, em intimidade. A parte urbanizada era composta por 38 ruas, dez travessas, sete pátios e seis becos. A rua do Rosário contava com 77 casas, com 443 moradores e vinte e três estabelecimentos comerciais; a direita, 39 casas, 317 moradores e dezesseis estabelecimentos comerciais; a do Comércio, 31 casas, 208 moradores e vinte estabelecimentos comercias; a de São Bento, 52 casas, 256 moradores e nove estabelecimentos comerciais.
                   A Independência ocorreu dois anos antes da morte de seu tio, D. Mateus. Este, já entrado em anos, lhe entregara todas as atividades, continuava como o símbolo.
                   Dom Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade foi o informante de D. Pedro, participou de todos os eventos da celebração da Independência.


            36. LOGRADOUROS ANTIGOS DA CIDADE DE SÃO PAULO


AVENIDA
Avenida Água Branca – Avenida Francisco Matarazzo
BECOS
Beco do Barbas – Ladeira Porto Geral
Beco Bom Jesus – parte da rua Álvares Penteado
Beco da Cachaça – fica entre a rua do Comércio e rua do Rosário
Beco do Inferno – Travessa do Comércio
Beco da Lapa – rua Dr. Miguel Couto
Beco do Mata Fome – rua Araújo
Beco dos Mosquitos – esquina da Praça da Sé
Beco do Pinto – fica em parte da rua do Carmo
Beco Sujo – parte da rua Tabatinguera

CAMPOS
Campo do Carro – rua Domingos de Morais
Campo da Luz – Avenida Tiradentes


ESPLANADA
Esplanado do Carmo – Praça Clóvis Beviláqua

LARGOS
Largo do Carmo – Prédio da Secretaria da Fazenda
Largo do Colégio – Pátio do Colégio
Largo da Forca e Cadeia – Largo da Liberdade
Largo da Glória – Largo São Paulo – Praça Almeida Júnior
Largo do Palácio – Pátio do Colégio
Largo do Pelourinho – Largo Sete de Setembro
Largo do Piques – Largo da Memória
Largo do Rosário – Praça Antonio Prado
Largo São Bento – Largo São Bento
Largo São Francisco – Largo São Francisco
Largo São Gonçalo – Largo da Cadeia – Largo Municipal – Praça João Mendes
Largo da Sé – Praça da Sé

LOMBADA
Lombada Caguaçu – Avenida Paulista

MORRO
Morro do Chá – Praça Ramos de Azevedo

PRAÇAS
Praça das Alagoas – rua do Ouvidor Pacheco e Silva
Praça da Legião – Campo do Arouche – Praça Alexandre Herculano – Largo do Arouche
Praça das Milícias – Largo dos Curros – Largo Sete de Abril – Praça da República

RUAS
Rua Açu – rua do Seminário
Rua Alegre – rua Brigadeiro Tobias
Rua da Alegria – rua Sebastião Pereira
Rua Baixa (Beco das Sete Voltas) – rua Vinte e Cinco de Março
Rua dos Bambus – avenida Rio Branco
Rua da Boa Morte – parte da rua do Carmo
Rua da Boa Vista – rua Boa Vista
Rua do Carmo (parte) – rua Roberto Cochrane Simonsen
Rua da Casa Santa – rua Riachuelo
Rua da Cachaça – rua da Quitanda
Rua das Casinhas – rua do Tesouro
Rua Celeste – rua 13 de Maio
Rua do Chá – rua Barão de Itapetininga
Rua do Cônego Tomé Pinto – rua da Cadeia – rua da Cadeia Velha – rua do Governador – rua do Ouvidor – rua José Bonifácio
Rua do Cotovelo – rua da Quitanda
Rua do Curral ou Verde – Rua Santo Amaro
Rua Detrás do Quartel – rua Anita Garibaldi
Rua Direita Que Vae Para Santo Antonio – rua Direita da Misericórdia – rua Floriano Peixoto – rua Direita
Rua do Ferrador – rua Benjamin Constante
Rua das Flores – rua Silveira Martins
Rua da Fundição – rua Floriano Peixoto
Rua da Forca – rua da Liberdade
Rua da Freira – rua Senador Feijó
Rua da Glória – rua da Glória
Rua do Jogo da Bola – rua da Cruz Preta – rua do Príncipe – rua Quintino Bocaiúva
Rua Miguel Carlos – rua da Constituição – rua Florêncio de Abreu
Rua Nossa Senhora da Consolação – rua da Consolação
Rua do Ouvidor – rua José Bonifácio
Rua do Paim – rua Frei Caneca
Rua do Piques – rua Quirino de Andrade
Rua do Pocinho – rua Vieira de Carvalho
Rua da Ponte Nova do Lorena – rua da Palha – rua Sete de Abril
Rua do Quartel – rua Onze de Agosto
Rua do Quintal do Palácio – rua Municipal – rua João Alfredo – rua General Carneiro
Rua da Quitanda – rua Quitanda Velha – rua do Comércio – rua Álvares Penteado
Rua do Rosário (no século XVII chamava-se “Manuel Paes Linhares”, após rua do Rosário dos Homens Pretos e rua da Imperatriz). Finalmente, rua XV de Novembro
Rua Santa Tereza – rua Santa Tereza
Rua Santo Amaro – avenida Brigadeiro Luís Antonio
Rua São Bento – rua Moreira César – rua São Bento
Rua São Gonçalo – rua Rodrigo Silva
Rua São João Batista – Avenida São João
Rua São José – rua Libero Badaró
Rua Tabatingüera – rua do Matemático – rua Tabatingüera – rua Dr. Rodrigo Silva – rua Tabatingüera
Rua Triste – após, rua da Conceição. Finalmente, avenida Cásper Líbero
Rua do Trem – rua Anita Geribaldi

TRAVESSAS
Travessa do Colégio – rua Anchieta
Travessa da Santa Casa – travessa Cristóvão Colombo
                   * D. Luiz Antônio de Souza, o Morgado de Mateus, governou a Capitania de São Paulo no período de 1765 a 1775, estabelecendo um marco na história paulista. Já, em 1765, tentou o primeiro censo demográfico em São Paulo, apurando: 899 fogos, com 1748 homens e 2090 mulheres. Seus bairros eram os do Pari, Embujaçava, Pirajuçava, Pinheiros, Nossa Senhora do Ó, Santana, Penha, Tremembé até a Cachoeira (inclusive), Jaraguá, Caaguaçu, Tatuapé e Aricanduva. Mais afastados: São Bernardo, Borda do Campo. Mercês e São Caetano.
                   Existiam inúmeros vendeiros, seis caixeiros, quatro estudantes, um caixeiro-viajante, três médicos-cirurgiões e alguns especialistas em leis.

CONFITEOR I - CONTINUAÇÃO

29. O CONFESSOR E A PROSTITUTA

 Adentra o velho templo uma mulher sofrida.
 A mais terrível das moléstias, não conseguira destruir-lhe os traços de beleza.
 Guarda de outrora ainda, resquícios de nobreza.
 A natureza, lhe fora pródiga e amável.
 Excursiona com dificuldade, atravessa a nave e chega, junto ao confessionário, onde um velho monge dedilha seu rosário.
- Padre, boa tarde. Não vim pedir perdão. Sei bem, Deus não perdoa o ser, que sendo humano, torna-se profano, mais vil que um cão. Quero somente relatar alguns de meus pecados.
- Aproxima-te filha, senta-te ao meu lado e abre tu’alma, perfila, um a um, os teus desgostos. É cedo, não tenhamos pressa, tenhas calma!
          - Prepara-te padre, corar-vos-á o meu segredo. Somente hoje senti coragem. Antes tive muito medo. Fui feliz quando criança. Vivi a fidalga abastança. Moça linda, rica mulher. Tive um lar, fui milionária. Casei-me, meu esposo cobria-me de beijos. Porém, por mais que me agradasse, achava pouco. E, nesse mundo louco, não soube entendê-lo.
           Sentia-me angustiada dentro do palácio. Cada gentileza de um criado me dava a impressão da atitude estúpida de um palhaço. Queria ares outros, muita liberdade. Abrir minha alma à incógnita do mundo.
Um dia tomei uma decisão. Varri gaveta por gaveta, abri o cofre, arrebatei minhas jóias, uma fortuna. E, no mar das ilusões, fui buscar a branca e névoa espuma. Atravessei a última saleta, transpus o portão e fui respirar a liberdade, no mundo escravo da ilusão. Devolvi-me às futilidades de menina.
Ele viajava, era noite, a cidade brincava em sua orgia vespertina. As luzes iluminavam a larga praça. No céu azul, nenhuma fumaça escondia o brilho das estrelas. E, só de vê-las, era desvairadamente feliz. Pratiquei tudo aquilo que sonhei, o quanto quis.
Quando ele voltou, não sei quão grande foi o seu delírio. Sei que desceu de seu mundo, percorreu lugares, antes desconhecidos. Perambulou pelas ruas, pediu a deus clemência. Encontrou-me após grande insistência. Mas vendo-me envolvida na podridão da lama, tal foi seu inusitado drama que chorou, chorou...
Trazia em seus olhos vermelhos uma expressão de horror. Mas eram duas chamas ardentes, que ainda falavam de amor. Emudeci, tranquei-me calada. Na janela, a Lua passava enamorada. Na grande sala, as prostitutas, profissionais do amor artificial, perplexas, bestificadas, presenciavam aquela cena de dor.
Ele estendeu-me a mão e, entre soluços, disse-me: - “Levanta-te, volta, eu te perdoo”!
 Não obstante, a bondade, estampada em seu rosto, enojei-me de mim mesma, senti enjoo. E prossegue: “Vamos, nosso lar te espera. Amanhã, ao surgir da outra aurora, será para nós uma nova Primavera”!
Envergonhada e orgulhosa, mistificada e vaidosa, preferi o fel das desilusões. De lá para cá não há o que o mais o diga. Brilhei nos cabarés, fui prostituta de esquina, troquei a vida de feliz menina, pela de desgraçada rapariga. Vendi ilusões, usei maconha, sobejou-me a mais minúscula vergonha.
Nos primeiros tempos, nos cabarés, em pé, fui aplaudida, conheci os altos e baixos de qualquer perdida. Fui nobre do vício, galguei altares de sexo, rastejei calçadas. Vivi os delírios das aparentemente intermináveis madrugadas.
De tudo o que fui, restam-me estes farrapos. Estou aqui, neste templo, não para pedir perdão. Narro apenas o que fui e o que sou.
E, assim dizendo, a velha prostituta cala-se e nada mais o padre escuta.
Ele pasmado, buscando dentro de si, o bem e o mal, que praticara, também, lembra-se de sua imperfeição de outrora. Quando ainda jovem, do confessionário, fizera o veículo da prostituição dos lares. De arrependido e mudo, começa a falar: - “Mulher, tu que partes para a eternidade, vai lá e pede ao Santo, Eterno Padre, que me perdoe por Deus. Porque foste pequena, ainda uma verbena, perto dos crimes meus”.
O padre, falando assim alto, tendo a mulher caída ao seu lado, percebe que estava rodeado pelas carolas da igreja. Desvairado, sai pela praça e, na arruaça da criançada que o vê, tudo aquilo ainda era pouco. O Cura estava, completamente, louco!...
No piso da igreja a moribunda rasteja, cumprindo o seu fadário. Chega até as imediações do sacrário. Num só segundo relembra toda sua passagem pelo mundo. Em último esforço ergue seus braços e pede perdão ao Nazareno: “Senhor, quero pedir-te perdão, perdoa-me, lava de minha alma esta podridão mesquinha!”
Sobre o altar, voava festiva, descrevendo círculos, uma indiferente andorinha.
Mas alguém, que passara despercebido, o frade encarregado da limpeza da igreja, que tudo assistira absorto, aproxima-se da moribunda e levantando do rosto a velha veste, toma-a nos braços e diz: “Deus do amor, do perdão, que não advoga vingança, perdoa esta mulher. Corri mundos, gastei minha fortuna na ilusão do esquecimento, tornei-me frade, o mais humilde do convento”.
Aflito, o velho frade, o serviçal do templo, em gritos, implora perdão a Deus.
No altar, o rosto sereno da Virgem, repousa. E, enquanto ela morre, ele, delirante, beija os lábios da própria esposa!...


                    “In Tanta incostantia, Turbaque Rerum Nihil Nisi Quod Proeterit Certum Est” (“na grande turba inconstante das coisas, só é certo aquilo que já passou”), - afirmava-o Sêneca, “diante da imutabilidade irrevogável do passado, que nem os Deuses têm o poder de destruir”. Realmente, segundo Schopenhauer, “graças à sua razão, o homem não fica como o animal, fechado dentro dos limites estreitos do presente visível; conhece ainda o passado, que é infinitamente mais extenso e a fonte, donde decorre o presente”... “Um povo, que não conhece a sua própria História, está limitado ao presente da geração atual: esse povo não compreende nem a sua própria natureza, nem a sua própria existência na impossibilidade em que está de as relacionar com o passado, que as explica; e muito menos pode antecipar alguma coisa do futuro. Somente a História pode dar a um povo a inteira consciência de si próprio”. (“LE MONDE COMME VOLANTÉ ET COMME REPRESENTATION”, tradução de A. Bourdeau, Paris, 1890, volume III, página 256).




30.  LOCALIZAÇÃO NO TEMPO E NO ESPAÇO

                   O Tempo passa ou passamos nós?
                   Há uma qualidade não-material específica,  fluxo responsável sobre a seta do tempo, esta imaginária. O questionamento físico/filosófico do conceito de tempo é complexo. Preocuparam-se com a conceituação espaço/tempo, Platão, Leibnitz, Newton, Heráclito, Zenão, Aristóteles.
                   Também Santo Agostinho preocupou-se com a temática. “Se ninguém me pergunta o que é, eu o sei; se me pedem explicações, já não sei mais”. Para ele o correto seria falar no presente do passado, no presente do presente e no presente do futuro. Estão em nosso espírito. O presente das coisas passadas é a memória; das coisas presentes,  a visão direta; das coisas futuras, a espera.
                   Porém, eu me pergunto: existe o tempo? Obrigo-me a conviver com meu reflexo no espelho, seria isto a ação implacável do tempo?
                   Maravilhosamente, eu que saí do tempo, volto para ele, dele falo, em outros eras, embora esteja numa outra esfera, estado, ao qual entendo, porque nele estou.
                   Passei pelo tempo, volto para ele e, em sua sintonia, fui e sou e serei. Existo na essência,  precursora de minha existência.
                   Somos intemporais.

31. O BISPADO E A ADMINISTRAÇÃO DE SÃO PAULO

                  Coube, ao Bispado, importante tarefa na formação embrionária da administração de São Paulo. As classificações paroquiais permitiram as divisões administrativas da cidade. A cidade de São Paulo, fundada pelos padres jesuítas, reestrutura-se, mercê da distribuição demográfica dos bairros e paróquias.
                   Quando o morgado de Mateus assume o governo da Capital de São Paulo, adota os parâmetros para a divisão administrativa eclesiástica, objetivando a imposição da cobrança de tributos. Em contrapartida, procurou pagar, com regularidade, as côngruas dos párocos, assim como, reformar as igrejas, em péssimo estado de conservação, em estado de ruína, caso do Colégio e edifícios contíguos, sequestrados dos jesuítas.
                   Junto às igrejas funcionavam as irmandades religiosas, fator de aglutinação do povo, dos ricos ou dos pobres. Com o surgimento das irmandades, nasciam as associações de classe, porque a irmandade da época, tanto era confraria religiosa, quanto associação de classe. Eram associações racistas. Das irmandades de homens retos, não participavam homens brancos, nem pardos ou vice-versa. Competia-lhes procurar irmandade correspondente à sua classe e cor.
                   Assim, a Irmandade da Misericórdia foi fundada em 1606; a do Santíssimo Sacramento, em 1695; a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Brancos, em 1724; entre outras, a dos Homens Pardos de Nossa Senhora da Boa Morte, em 1802; a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em 1810; e a de Nossa Senhora dos Remédios, em 1812.


32. MINHA FAMÍLIA AMADA
(Confesso pelo meu antepassado)

                   “Eis minha confissão: penitencio-me diante de Deus, sob o testemunho dos homens, no efetivo propósito de minha redenção. Encerrada a cerimônia da procissão, tomei consciência de indescritíveis fraquezas em todo o percurso de minha trajetória existencial. Porém, alegro-me infinitamente, pleno de ufania, por haver gerado um filho tão amado. Visita-me, costumeiramente. Sua presença me faz feliz. Sou bispo e ele me diz: “meu pai”!... Essa expressão me dá plenitude. É intelectual. Conversa comigo sobre os autores europeus. Devorador do conteúdo de livros, na maioria, exemplares, que lho dou de presente. Quando o visito, pergunta-me incontinente: trouxeste-me alguma novidade? Conhece filosofia, comenta Voltaire, Rousseau, Montesquieu, com enorme familiaridade. Leu os autores portugueses, italianos, espanhóis e ingleses. Passamos horas falando de caçadas. Conta-me sobre a fazenda “Montes Claros”. É perfeito e clássico narrador. Relembro-lhe a Ilha da Madeira, as cidades portuguesas, os costumes lusitanos. Mantém curiosidade imensa sobre Coimbra. Tenho lhe dito tudo sobre nossas origens. Meus netos levam-me aos quatro cantos, quando na Fazenda. Vamos todos pescar no lago e, pela manhãzinha, rezam comigo na capela. Todos recitam, em latim, a santa missa.  À tardinha, oramos juntos à Ave Maria. Nosso convívio é permanente celebração. Os mais novos disputam minhas pernas, quando percebo, em duplas. Acariciam-me as mãos, o rosto, falam-me palavras de ternura. Chegada a hora da despedida, choramos juntos, em saudosos amplexos. Jamais soube de família mais feliz. Nosso lar tem as bênçãos divinas. Pudéssemos, nossa convivência seria diária, diuturna. Entretanto, perto ou distantes, nos lembramos a cada momento.
                   Nosso encontro já estava programado. Formamos um quadro pré-existente. Fomos chegando, individualmente. Já éramos uma consciência. Deus nos permitiu tanta felicidade. Como é bom amar!...”
(Com base no que ouvi de minha avó, Amélia Augusta de Andrade)


33. PULVIS VETERUM RENOVABITUR

(O pó dos velhos será renovado)

            Se alguém, num ato de humildade, me pedir um conselho, dir-lhe-ei:  jamais renegues tua origem!...
           O pó dos velhos há de ser renovado. Somos aquilo que foram nossos maiores. Estamos na nascente do rio do qual viemos. A essência precede à existência.
           Não percamos nossa identidade. Guardemos, da infância, a integral naturalidade. Ao nos tratarem por um apelido, estaremos sendo acariciados por aquele, que nos ama sinceramente. Os títulos honoríficos são troféus de latão. Caminhemos, serenamente, sem nos envolvermos pelos aplausos dos bajuladores. Estes são narcisistas e cultuam a própria personalidade, objetivando dividendos. Somente nos respeitam os isentos de interesses inconfessáveis.
          As glórias desta existência são efêmeras. As únicas flores legítimas, são as nascidas, naturalmente, à orla de nosso caminho, de forma espontânea e generosa. Apreciemos o gorjeio dos pássaros livres. Estes não são membros de orquestra encomendada.
          Jamais hostilizemos a quem nos respeita. Não nos é dado o direito de detratar por emulação. Quando necessitarmos advertir um nosso semelhante, façamo-lo discretamente, na intimidade, sem audiência de platéia. A canalha delira diante do constrangimento dos mais fracos.
          Formemos, com nossa conduta, a sementeira do amor.
         Dessa forma, encontraremos paz ampla e generosa, no sentido exato da palavra, não a tranquilidade podre e estagnada dos pantanais, nem a concórdia eriçada de mentiras de determinados políticos, falsos salvadores da Pátria, mas o sossego traduzido em felicidade, esse equilíbrio tão necessário, entre nosso mundo interior e o meio, que nos cerca. Assim, nossos horizontes estarão sempre mais e mais abertos, porque o orgulho e a presunção edificam o mais desgraçado e abominável dos cárceres!... (57)


34. IMPERIAL CIDADE

                   Agosto de 1822. Vinte e quatro anos incompletos, o príncipe- regente, exatamente no dia quatorze, inicia sua viagem a São Paulo, com cinco auxiliares, dentre eles, Francisco Gomes da Silva, alcunhado Chalaça, imediato para questões de Estado e alcoviteiro, Francisco de Castro Canto e Melo, alferes de 23 anos, originário de São Paulo, filho do militar Francisco de Castro Canto e Melo. Vieram pelo Vale do Paraíba, por Areias, Lorena, Guaratinguetá, Pindamonhangaba, Jacareí. A comitiva foi engrossando pelos filhos ilustres de abastados fazendeiros. Chegaram ao arrabalde da Penha, em 24 de agosto, décimo dia de viagem, donde avistaram as pontas das torres das igrejas, numa visão fantástica do limiar do horizonte, onde acamparam por precaução. D. Pedro, para consolidar o poder, entendia necessário pacificar os ânimos na cidade de São Paulo.
                   São Paulo, com a volta de José Bonifácio, estava a conspirar. Entretanto, D. Pedro enviou Chalaça e o alferes Canto e Melo para observar. De volta, informaram-no da “mais perfeita quietação” da cidade. No dia seguinte, o príncipe ouviu missa na igrejinha da Penha e, em seguida, rumou para o centro de São Paulo.
                   Não devo prosseguir sem antes relatar das razões da desnecessária apreensão. A Revolução constitucionalista do Porto, resultou, como consequência, a volta de D. João VI a Portugal e a expansão das idéias liberais. Em São Paulo, José Bonifácio foi o catalisador do ideário. Com 58 anos, morava na sede de antiga fazenda dos jesuítas, após 36 anos na Europa, quando se tornara célebre como cientista, fundando a cadeira de mineralogia na Universidade de Coimbra. Instalara-se, inicialmente, em Santos, sua terra natal.
                   Em abril de 1821 chefiou um movimento conspiratório com  membros do Senado da Câmara e chefes das guarnições militares. Pretendia-se formar, em São Paulo, um governo provisório, segundo o movimento constitucionalista português. Amanhecia o dia 23 de junho, no largo de São Gonçalo, ouve-se o sino, era o sinal convencionado para reunir-se o povo e a tropa, na verdade, civis grados da cidade,  chefes militares e quem quisesse aderir.
                   Estava montado o espetáculo, nos moldes, estilo ibérico, volta aos velhos costumes de agitação insubordinada, porém, com idéias e ideais. Providenciou-se a presença do futuro Patriarca, com entrada gloriosa no recinto da Câmara, com a seguinte expressão: “Senhores, sou muito sensível à honra que me fazeis, elegendo-me presidente do governo provisório que pretendeis instalar”. “Pela felicidade de minha pátria farei os mais custosos sacrifícios, até derramar a última gota de meu sangue”. Da janela da Câmara, declinou os nomes, entendidos dignos, de figurar no governo. Figura singular a desse mais elevado brasileiro daquela época, sugeriu continuasse o governador João Carlos de Oyenhausen. Sua atitude adotava a mesma estratégia utilizada alguns meses após, quando da articulação da Independência, preservando no trono o príncipe português. Expressou, ainda: “Senhores, este deve ser o dia da reconciliação geral entre todos”. “Desapareçam ódios, inimizades e paixões”.
Contudo, a multidão concordou, desde que José Bonifácio aceitasse o cargo de vice-governador. Aceito, tudo foi feita.
                   Narro estes sucessos, dez meses antes da viagem do príncipe D. Pedro, porque Manuel Joaquim foi testemunha ocular. Participou do Te Deum, na Catedral, em regozijo. Dom Mateus, já idoso, discutiu ele a fase preparatória. Sua palavra era sempre a de seu tio, e ícone. A notícia da formação do governo provisório foi recebida como homenagem por D. Pedro. Estreitou, mais tarde, os laços com José Bonifácio. Nascia a Independência do Brasil. Em janeiro de 1822, José Bonifácio era nomeado ministro dos Negócios do Reino e dos Estrangeiros. Ia para o Rio de Janeiro, sem se desligar de São Paulo.
                   Quando D. Pedro, em agosto, chegou a São Paulo, era esse o clima de rebelião. Pretendia por ordem na casa. Quando, ainda, em Lorena, através de decreto, dissolveu o governo provisório paulista.
                   Em sua entrada, logo D. Pedro percebeu que o clima era amigo. O povo, formado em alas, o aclamava. Quando chegou à ladeira do Carmo, encontrou o primeiro arco, que ele mandara armar, em frente a residência do bispo, em sua honra. Ali começava a recepção oficial. Sob o arco, o príncipe apeou; sob o pálio, caminhou em direção à Sé. A cada passo, vivas e aclamações. Na Sé, o Te Deum.
                   À noite, luminárias nas fachadas. No dia seguinte, o beija-mão. Nos  seguintes, as delegações de vilas do interior – Itu, Campinas, Sorocaba.
                   O governador deposto, Oyenhausen, nesse dado momento, encontrava-se preso no Rio de Janeiro, donde foi deportado.

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26. O PADRE JOSEPH


                   José de Anchieta era espanhol de origem basca, nascido nas Canárias. Aos 19 anos, em maio de 1553 embarcou em Lisboa, com destino ao Brasil. Integrava a comitiva do segundo governador-geral, Duarte da Costa, sucessor de Tomé de Sousa. Vinham em sua companhia sete jesuítas, chefiava a missão o padre Luís de Grã, ex-reitor do Colégio de Coimbra.
                   Anchieta nasceu em 19 de março de 1534, em Laguna, capital da Ilha de Tenerife, a maior ilha das Canárias, filho do basco Juan de Anchieta e Mencia Diaz de Clavijo Y Lorena. Pertencia ao clã de Loiola. Entretanto, o próprio Loiola, durante a juventude, esteve envolvido num atentado contra um Anchieta. Estudou Filosofia, dialética e letras na Universidade de Coimbra.
                   Num lado da colina debruçada sobre o Tamanduateí, Nóbrega fez erguer uma casa, com 14 passos de comprimento por dez de largura, para habitação dos jesuítas, com parede de barro, pau e telhado de palha, levantada pelos índios, destinada a servir de escola, enfermaria, dormitório, refeitório, cozinha e despensa, onde se reuniam 12 ou 13 jesuítas.
                   Em 25 de janeiro de 1554, data da conversão de São Paulo, com a celebração de uma missa, em casa paupérrima, localizada em meio a uma aldeia de índios, é inaugurado o Colégio, passando para a história como o dia da fundação de São Paulo. Anchieta participava, daquele ato, sem ter consciência de que seu nome ficaria ligado pelos séculos vindouros. Passou a exercer importantes funções, dentre as quais, redigir a “carta quadrimestral”, através da qual os jesuítas prestavam contas de suas atividades aos dirigentes da ordem, na Europa. Terminava sempre suas cartas “em Piratininga, na Casa de São Paulo da Companhia de Jesus”.
                   Dominava o latim, o espanhol e o português, dedicou-se à confecção de uma “artinha”, como eram chamadas as gramáticas – a primeira gramática da língua tupi, usada já em 1560. Exercia a profissão de sapateiro, fabricante de alpercatas para abastecer os colegas jesuítas.
                   No episódio da pacificação dos tamoios, Anchieta ficou durante quatro meses em Iperoigue, quando escreveu o poema, em latim, à Virgem Maria. Participou, ao lado dos tamoios, da expulsão dos franceses do Rio de Janeiro, quando, ao lado de Nóbrega, fundou o Colégio Jesuíta na nova povoação. Foi diretor do Colégio de São Vicente. Em 1577 foi à Bahia, sendo nomeado provincial dos jesuítas no Brasil, quando se despede da história de São Paulo.
                   Pedro Dias, da família Parente Dias Velho de Portugal, veio a São Vicente, como irmão leigo da Companhia de Jesus. Passou a São Paulo, no princípio de sua fundação, em 1554, com os padres jesuítas, que então formaram o Colégio de Piratininga. Governava os índios, daquela região o cacique Tibiriçá; e, afeiçoando-se ele pelo leigo Pedro Dias, o pediu para seu genro. Como viesse desse enlace, para o efeito de congraçar os portugueses com os índios, chamando-os por essa forma, mais facilmente, ao grêmio da Igreja, consultou-se ao geral da ordem, que era Santo Inácio de Loiola, então residente em Roma, sobre o assunto e por ele foi decidido que, querendo, o leigo se casasse: para o que o desligou dos votos. Obtida a licença, casou-se Pedro Dias com a segunda filha de Tibiriçá, a qual tendo o nome indígena – Terebê – foi batizada com o nome de Maria de Grã, em atenção ao reverendíssimo padre Luís de Grã, que foi o primeiro superior do Colégio, formado nos campos de Piratininga.
É desse Pedro Dias, que descende José Joaquim Leme da Silva, um dos fundadores de São João do Rio Claro, este genro de Lourenço Franco de Oliveira, fundador de Nossa Senhora do Rosário de Serra Negra do Rio do Peixe, à qual, na condição de Bispo e no exercício da Presidência da Província de São Paulo, Dom Manuel Joaquim, concedeu Capela Curada, em 23 de setembro de 1828.
                   No Espírito Santo foi diretor do colégio local. Morreu em Reritiba (28), em 9 de junho de 1597, num domingo, aos 63 anos, 44 dos quais vividos no Brasil. JOSEPH DE ANCHIETA escreveu as mais belas páginas da história de São Paulo.  
                   A propriedade rural de Dom Manuel Joaquim, em São José do Parayba pertenceu aos Jesuítas, sequestrada pelo Marquês de Pombal.
                   O filho foi criado em sua fazenda, localizada em São José do Parayba, denominada Montes Claros, chamou-se como o pai Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade. Herdou sua predileção pela leitura. Foi cidadão prestante, vereador à Câmara Municipal e, em 25 de março de 1825 esta, por deliberação unânime, representou a Sua Majestade o Imperador D. Pedro I, pedindo fosse ele nomeado Bispo de São Paulo, mencionando sua condição de fazendeiro naquela comunidade e lá ser muito estimado. Seu filho, muito amado, assumiu a vereança, novamente, em 1827, assim como, no mandato de 1829 a 1832.
                   Pela Lei de 9 de abril de 1834, instituindo prefeitos municipais, o capitão Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade foi  nomeado para o cargo de Prefeito Municipal, que desempenhou durante largos anos. Exerceu, ainda, o cargo de Juiz de Paz.


27. NOTÁVEIS DA CAPITAL DA PROVÍNCIA

                   Dos mais notáveis de São Paulo, em primeiro lugar, os Andradas. Formados pela Universidade de Coimbra. José Bonifácio, Patriarca da Independência do Brasil, injustiçado pelo próprio Imperador; quando de sua abdicação, confiou a ele a tutela de seus filhos. Antonio Carlos e Martim Francisco foram notáveis oradores, membros, por volta de 1839, da legislatura provincial de São Paulo, da qual fazia parte Dom Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade e, também, Vergueiro, Álvares Machado, Tobias de Aguiar, Padre Antonio Maria de Moura, auxiliar do Bispo e seu confidente, não obstante pelos seus trinta e cinco anos de idade, seu conselheiro.
                   As sessões, do corpo legislativo, realizavam-se em dependências do Colégio dos Jesuítas, adaptada para edifício público. As Assembléias Legislativas Provinciais foram criadas em 1834.


28. FEIJÓ E O CELIBATO CLERICAL

                   Proclamada a Independência, surge a idéia de uma reforma católica no Brasil. Feijó e seu grupo apoiavam a supressão do celibato clerical.
                   Em 1827, António Ferreira França, deputado pela Bahia, em três de setembro, propunha que “o nosso clero fosse casado e que os frades e freiras acabassem entre nós” Em dez de outubro, Feijó propõe ameaças ao Papa: “primeiro que autorize o Governo para obter de Sua Santidade a revogação das penas espirituais ao clérigo que se casa ...”. Sendo o Contrato do Matrimônio o que assegura a paz das famílias, educação dos filhos, e os direitos que a Lei lhe concede sobre os bens dos seus progenitores; tendo sido o objeto dos cuidados de todos os Legisladores, intervindo a mesma religião para santificá-lo com cerimônias sagradas, não convém que aos legisladores do Brasil seja indiferente que os Eclesiásticos, a cujo cargo tem estado a sua fiscalização, continuem a ser arbitrários dispensadores de condições e fórmulas essenciais ao mesmo Contrato” . Em 1834, o grupo de Feijó entregou a Dom Manoel Joaquim, na condição de bispo e Presidente do Conselho Geral de São Paulo, uma Representação, em que lhe era solicitada a dispensa do celibato clerical em sua diocese.
                   Feijó, filho de padre e convivente, em sua chácara, localizada em Itu, com sua prole, entendia fosse oportunidade propícia. Sabia da situação do Bispo, inclusive seu engajamento em atividades econômicas e lucrativas, a Fazenda “Montes Claros”, em São José do Parayba, com quatrocentos alqueires de terras, onde cultivava café e criou seu filho, com seu nome; além de ser fazendeiro, dono de escravos, apaixonado caçador, com destacada atuação política em São Paulo, desde os tempos da Independência, sendo membro militante e um dos chefes do Partido Conservador.
                   A representação, de 14 de janeiro, fundamentava-se em dois pontos: um, de ordem moral, visava corrigir a situação do “clero amasiado”; outro, de caráter demográfico, com o objetivo de aumentar a população.
                   O documento era explícito em seu objetivo, informando ao que muito bem ele sabia: “É doloroso, mas é preciso confessá-lo: a lei do celibato é letra morta, só existe, e não de fato. Nem se atribua esse mal à geração presente. Ele é antiquíssimo, tão antigo como a própria lei. Não observada a lei, não só são criminosos os transgressores dela, como todos aqueles que conduzem ao erro o mau exemplo da classe, que mais deve influir na moral por ser a escolhida e destinada ao serviço do culto”. Prossegue: “Se, pois, para o exercício do ministério sacerdotal se exige uma consciência pura, se, dispensada a lei, os ministros do culto não têm tão frequentes ocasiões de pecar, por isso mesmo se estabelece e promove a decência do mesmo culto, cessa o escândalo dos fiéis, tira-se o motivo da censura, dos insultos e dos sarcasmos com que os ímpios satirizam e zombam da religião, confundindo a pureza e santidade desta com a de seus ministros”. “Mas não é só a Igreja que lucra com a dispensa dessa lei. É também o Estado. O Brasil, um império vastíssimo por sua extensão territorial, tem uma população muito limitada, por consequência convém-lhe necessariamente promover todos os meios de aumentar a sua população e torná-la mais moralizada.
O aumento dos casamentos, ou por outra, a diminuição dos celibatários, na opinião dos mais hábeis publicistas, consegue estes dois fins: aumenta a população, pois que, pondo a prole nas circunstâncias de obter na casa paterna todos os socorros que demandam os filhos, estes não ficam abandonados. Torna a população mais moralizada, não só pela melhor educação da mocidade, como porque, tornando-se mais frequentes os casamentos, evitam-se as desgraças de muitas vítimas da educação e do mau exemplo”.
                   “Nem se diga que se pretende destarte menosprezar a virtude da castidade. Não . Aqueles que se conhecem com forças para a sua prática, aqueles a quem a graça divina levar a esse estado de perfeição angelical, têm toda a liberdade de praticarem essa virtude. Mas não se exija da condição humana o que é superior às suas forças, não se imponha uma lei que o mesmo divino Salvador não impôs ao homem, porque não era necessária para a salvação”.
                   Ao receber essa representação, embora inclinado a aceitá-la, na condição de liberal, porém, não ingênuo, decidiu ganhar tempo. Não pretendia assumir só as consequências do processo decisório, submeteu o documento ao exame de vinte e uma personalidades, bem como ao Cabido Diocesano. Estes devolveram-lhe a incumbência, nos seguintes termos:  “conquanto julgue a dita Representação baseada em razão e justiça, contudo julga também que só  V. Exa. poderá decidir, pois ninguém melhor que V. Exa. conhece o estado do bispado e as premissas alegadas na dita Representação”.
                   O processo terminou arquivado, não obstante nova tentativa do grupo paulista, capitaneado por Feijó.
                   Registre-se que os fatos narrados causaram-lhe constrangimento e preocupações, eis que estava envolvido nesses sucessos.
                   Gregório VII (papa de 1073 a 1085) introduziu na Igreja o celibato obrigatório para os seus sacerdotes. Evidentemente, era bem intencionado. Pretendia selecionar os candidatos para o clero. Excepcionalmente, essa medida não atingia os padres da Igreja Católica Bizantina, do Oriente Médio. A Igreja de Roma já estava em situação delicada, tendo em vista o Cisma , irrompido em 1054,  quando Cerulário, Arcebispo de Constantinopla, decretou a separação de sua Arquidiocese de Roma, com a fundação da Igreja Ortodoxa Grega.
                   Jesus deixou a consciência de que há eunucos de vários tipos. Os verdadeiros são de origem no reino dos céus. Contudo, ao receber o Sacramento da Ordem, o novo padre não se transforma em eunuco. Poderá sofrer forte crise existencial, levando-se em conta de que sua vocação sacerdotal teria sido mera ilusão, idealismo decorrente de imaturidade de jovem.
                   O jovem padre poderá ter aventuras amorosas ou se sujeitar a distúrbios psicológicos, com tendências homossexuais ou pedófilas. Quando deveria ser um modelo para a sociedade, passa a escandalizar as pessoas. Ressalvando-se que farda e batina são os maiores excitantes para as mulheres.
                   Conclusão: “É melhor casar que abrasar”.
                   O fim do celibato só poderá ocorrer por decisão dos Cardeais de todas as partes do mundo. Quando se chega a cardeal, já passou, faz muito, o abrasamento, restam somente cinzas e estas não ardem.
Se o celibato não existe para a Igreja Bizantina, porque obrigatório para os demais padres?